Samba

Samba também é música baiana. Esse gênero musical, de ritmo sincopado, surgiu na Bahia, por volta do século 17. Suas raízes remontam aos batuques dos escravos africanos, com influências indígenas e portuguesas, incluindo a poesia e certos instrumentos musicais. Evoluiu em um estilo conhecido atualmente como Samba de Roda, ainda hoje, tocado e dançado no Recôncavo Baiano.

O samba era mais que um ritmo. Era um evento popular, com batuques e festa. Nas rodas de samba, os sambistas baianos eram dançarinos acrobáticos e exibiam-se no centro da roda. Cada novo sambista, chamado ao centro da roda, buscava superar o anterior. Era uma disputa de talento.

Encontra-se também referências ao samba em jornais de outros estados do Nordeste, do século 19. Em jornais de Pernambuco, usou-se a expressão "sem tamba, nem samba". Tamba é uma bebida fermentada, de origem indígena, feita de beiju. Mas as referências mais antigas e mais abundantes vêm da Bahia. Existiram batuques e umbigadas em outros estados, que deram origem a outros ritmos e danças, mas o samba foi na Bahia.

A Bahia também pode ter sido o berço das umbigadas. Aqui estão os registros mais antigos dessa manifestação popular. A Bahia era o centro político, econômico e cultural do Brasil. Daqui, a umbigada teria se espalhado por outras partes do Brasil e pode ter chegado em Angola com o nome de semba, como registrado em 1880, séculos depois dos primeiros registros na Bahia. Até o século 19, existia intenso comércio entre a Bahia, então, o maior porto do Brasil, e as colônia portuguesas na África. Assim, houve influências culturais dos dois lados.

Não se sabe, com certeza, a origem do nome samba. Talvez venha do semba, de origem banto, relativo a um estilo de dança registrado, em Angola, pelo escritor português Alfredo de Sarmento (1845-1904) em seu livro de viagens, publicado em 1880. Esse semba teria alguma semelhança, na dança, com o Samba de Roda. Mas não é possível afirmar que esse semba tenha raízes em Angola, pois, desde o século 17, tem-se registros de contribuições culturais do Brasil para a África, levadas por africanos que retornaram e também por portugueses. É o caso, por exemplo, da Bourian de Benin, que tem raízes na Festa da Burrinha da Bahia, popular no século 18. Em Benin também existe o povo somba, que habita o norte do País e de lá vieram muitos escravos para o Brasil. Cabe observar que no Diccionario da Lingua Angolense, de 1804, do Frei Cannecattim (décadas antes da referência de Sarmento), não há registros para semba, nem samba. O historiador Baptista Caetano, em artigo da Revista Brazileira (janeiro a março 1880), acreditava que o vocábulo samba poderia ter origem no tupi e, assim, levado do Brasil para a África pelos portugueses. Caetano contestava uma referência do escritor A. J. de Macedo Soares de que samba seria uma palavra africana, significando adoração a Deus. Outros autores dão outros exemplos possíveis.

O samba influenciou outros ritmos no Nordeste e chegou ao Rio de Janeiro, por volta do início do século 20, levado por baianos. No Rio, adquiriu novas matizes, principalmente como música carnavalesca.

A primeira gravação tradicionalmente reconhecida como sendo um samba, foi em dezembro de 1916, com o título Pelo Telefone, sua autoria é questionada e polêmica, mas foi gravada por Manuel Pedro dos Santos (1887-1944), conhecido como Bahiano, de Santo Amaro, conterrâneo de Caetano e Maria Bethânia.

Em 2005, o Samba de Roda foi declarado, pela UNESCO, patrimônio cultural imaterial da humanidade. Em 2007, foi inaugurada a Casa do Samba em Santo Amaro, Bahia, um espaço cultural e museu sobre o samba.

A ideia de que o samba foi criado em 1916 (como veiculada pela Globo) é simplesmente cômica. Esse foi o ano da gravação de Pelo Telefone. As referências ao samba na Bahia, no século 19, são abundantes. Os estudos que deram base à declaração da UNESCO foram exaustivamente analisados. Além disso, sempre se soube que o samba nasceu na Bahia. Veja o dossiê do IPHAN sobre o Samba de Roda do Recôncavo.

Também é falsa a ideia de que o samba urbano nasceu no Rio de Janeiro. O samba era bem urbano e popular, em Salvador, já em meados do século 19 ou antes. Mas a capital baiana sempre foi dinâmica e mutante. O samba cedeu espaço para novos ritmos, no século 20, mas permaneceu com suas raízes em outras cidades do Recôncavo. O complemento "de roda" foi uma criação do século 20 para se diferenciar do samba carnavalesco popularizado no Rio de Janeiro. Na Bahia do século 19 falava-se apenas em samba, como indicam as abundantes referências da época, encontradas em vários jornais.

Também não é possível afirmar que o samba, como gênero musical, nasceu no Rio de Janeiro (afirmação defendida por alguns cariocas). Não existem partituras musicais antigas ou outras evidências que sustentem tal alegação. Tudo indica, que o gênero musical, conhecido hoje como samba, foi levado da Bahia para o Rio, caso contrário, teria outro nome. Os cariocas aprenderam a sambar com os baianos. O jornal baiano O Guaycuru, de 26 de maio de 1846, traz o seguinte texto: ...a divertir-se talvez dançando o samba..., dando a entender que o samba já seria um gênero musical para se dançar (veja texto p.1 e p.2, seção Correspondência).

Segundo a etnomusicóloga baiana Emília Biancardi (Raízes Musicais da Bahia, 2006), o samba teria raízes em um estilo de batuque africano, provavelmente trazido de Angola ou do Congo.

Na Bahia, o samba surgiu misturando-se influências musicais africanas, indígenas e europeias. Uma versão primitiva do Samba de Roda, referida como embigada, aparece em poema do baiano Gregório de Matos, no século 17. Infelizmente, a impressão de jornais era proibida no Brasil, no século 18, ficando difícil rastrear manifestações populares daquele século. Veja referências ao samba na Bahia, em jornais do século 19:

Em 27 de julho de 1844, o jornal O Brasil, do Rio de Janeiro, citou que um soneto, publicado numa folha da Bahia, convidou jocosamente um tal de Vasconcelos para ser rei dos sambas. O jornal carioca fez o seguinte comentário: "desejaramos saber que honra é essa que lhe destinam os ministeriais bahianos, e pois perguntamos aos seus patricios e co-religionarios da imprensa da côrte, o que será samba, que bahianice é essa, meus Srs.?" Nota-se que os cariocas não tinham a menor ideia do que fosse o samba, na época.

Outro exemplo, o Jornal Correio da Bahia, de 17 de março de 1878, publicou uma história passada em Salvador "O Cantor de Serenatas", com o seguinte trecho (grafia da época): - Cantei até o diabo dizer abasta, e fui acabar a noite n'um samba na Boa Viagem. Olhem, cantei duas vezes a minha Lilia morreu, cantei [...] - Vocês não fazem idéa que pagode...

O jornal O Grito Nacional, de 1851, dando notícias da Bahia, refere-se a um baile, chamado de samba pelo autor.

Em 7 de setembro de 1871, dois soldados baianos foram presos por terem abandonado suas rondas para meterem-se em um samba, como referido na Fala do Desembargador Freitas Henriques à Assembleia da Bahia, em 1º de março de 1872.

Ao que parece, o samba estava proibido nos anos 1870 e 1880, mas os eventos do samba continuaram, como indicam as reportagens abaixo:

O Jornal Correio da Bahia, de 29 de dezembro de 1871, relatou que em Xique-Xique, na Bahia, o inspetor de quarteirão foi ferido ao tentar dissolver um samba (veja o texto na seção Notícias).

Em 1883, o cavaquinho já era usado no samba, em Santo Amaro, como indicou uma reportagem da Gazeta da Bahia, de 13 de janeiro, em editorial da União de Santo Amaro. O jornal citou que o samba era um divertimento proibido (veja aqui o texto). Na edição de 12 de outubro de 1886, o mesmo jornal citou que um tal de Jacintho de Mello foi preso por se achar em um samba (veja o texto na seção Prisões).

No século 20, vários artistas e pesquisadores, do Brasil e do mundo, registraram o samba nativo da Bahia.

Em 1944, por exemplo, Walt Disney mandou Donald a Salvador, para dançar o samba, no filme Você já Foi à Bahia?. Mas Hollywood sempre teve dificuldade para reproduzir o ritmo do samba em seus filmes. A falta de jeito dos estadunidenses, com o ritmo baiano, foi eternizada pelo paraibano Jackson do Pandeiro na música Chiclete com Banana (1959).

Em 1956, o antropólogo alemão Erich Wustmann publicou um artigo na revista alemã Illustrierte, mostrando o samba de raízes, em Salvador.

Em 1962, o cineasta baiano Glauber Rocha mostrou o Samba de Roda, em Lauro de Freitas, no seu filme Barravento e recebeu o Opera Prima no festival internacional de cinema de Karlovy Vary, na República Tcheca.

Até os anos 1980, era comum encontrar, no final das tardes, grupos de samba, formados por pescadores, nas praias de Piatã e Itapuã. Os sambas de roda também eram vistos em festas de largo ou durante o Carnaval.

 

 

Assis ValenteOs Novos Baianos cantam Brasil Pandeiro do compositor baiano Assis Valente (1911-1958), um dos maiores sambistas de todos os tempos.

José de Assis Valente nasceu em Patioba, na Bahia. Estudou em Salvador e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1928, trabalhando como protético. Compôs seus primeiros sambas nos anos '30 e suas inúmeras composições foram gravadas por Carmem Miranda (24 canções), Orlando Silva, Altamiro Carrilho, Anjos do Inferno, Bando da Lua, Moreira da Silva, Carmem Costa, Araci de Almeida, Marlene e outros. Suicidou-se em 1958.

 

A etnomusicóloga baiana Emília Biancardi expõe sua coleção de instrumentos musicais históricos no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador. Seu acervo inclui mais de mil instrumentos oriundos dos cinco continentes. Emília Biancardi é uma das maiores autoridades mundiais na área e atualmente coordena a Orquestra Museofônica da Bahia, a primeira do gênero no Brasil.

 

O samba em suas raízes. Baianas sambam em Santo Amaro, na Bahia.

Mais: Associação dos Sambadores e Sambadeiras da Bahia.

 

O arranjador multi-instrumentista paraibano, de Itabaiana, Severino Dias de Oliveira (1930-2006), o Sivuca, apresenta-se na Suécia, em 1969, tocando Berimbau, de Baden e Vinícius.

 

Samba enredo da Imperatriz Leopoldinense 2011. As escolas de samba do Rio de Janeiro estão entre as melhores intérpretes do ritmo baiano.

 

 

 

 

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